AMÉRICA INDÍGENA NO IMAGINÁRIO COLONIAL EUROPEU

           

Uso de crônicas e relatos coloniais no ensino de história

 

 

Autora: Profa. Dra. Susane Rodrigues de Oliveira

Proposta metodológica para o uso de fontes históricas no tratamento da história da América indígena pré-colombiana e colonial em sala de aula.

CRÔNICAS COLONIAIS NO ENSINO DE HISTÓRIA

 

As crônicas tiveram origem na Antiguidade e foram comuns na Idade Média e no Renascimento europeus. A palavra crônica tem origem no latim chronica, relacionada ao grego chrónos (tempo). Como registros literários de natureza descritiva e pedagógica, relatavam os acontecimentos históricos em ordem cronológica. Na Idade Média as crônicas contribuíram na construção e preservação da memória dos grandes feitos das monarquias. Nos séculos XV e XVI elas chegam à América. As ordenações hispânicas sobre as conquistas e descobrimentos prescreviam aos que fossem às costas americanas, com o objetivo de explorar a terra, levar um Veedor, geralmente um funcionário da Coroa, soldado, capitão ou missionário, para atuar como escrivão responsável pela descrição da terra, de suas riquezas e dos usos e costumes de seus habitantes. Deste modo, surgem os cronistas coloniais, os primeiros autores a relatar tanto a própria experiência vivenciada como a observada: os aspectos físicos e naturais da América, bem como os hábitos, costumes, rituais e histórias de seus habitantes, enfim, tudo o que viam e ouviam dizer, além do que lhes era relatado pelos próprios indígenas. As crônicas produzidas por europeus envolvidos no processo de colonização da América, mas também por alguns índios e mestiços cristianizados, constituem as principais fontes históricas para o estudo das sociedades indígenas pré-colombianas e colonial.

No entanto, os indígenas foram historicamente construídos nas crônicas por representações marcadas pelos vieses colonialistas e seu corolário de apagamentos e exclusões; por isso eles não podem ser reduzidos a essas representações. Como bem atenta Jovchelovith, “Precisamos manter a distinção entre a representação e o objeto, porque é na pluralidade dos processos representacionais que reside a possibilidade de manter o objeto aberto para as tentativas constantes de (re) significação que lhe são dirigidas” (2002, p. 78). É nessa perspectiva que propomos uma abordagem das crônicas coloniais como materiais didáticos nas aulas de história, com o objetivo de problematizar as representações e discutir as condições de produção do conhecimento sobre a América e os povos indígenas nas crônicas coloniais; ou seja, de estudar as condições de produção  das representações dos povos indígenas no cenário da conquista da América, – a historicidade de suas elaborações, – buscando romper com a universalização e naturalização das imagens dos indígenas e europeus na história.

O trabalho pedagógico com as narrativas coloniais possibilita a percepção de diferentes “modos de ver” e significar o passado indígena, além da compreensão da historicidade das interpretações e das relações da linguagem com a cultura e o poder. Neste caminho abre-se possibilidade para que os estudantes também possam interpretar o passado e reconhecer a historicidade de suas próprias representações acerca dos indígenas. A intensa difusão de imagens/representações históricas na mídia brasileira impõe à escola o desafio de estimular os estudantes na interpretação crítica destas representações, para o estabelecimento de uma atitude ativa e dialógica diante da televisão e do conhecimento histórico (ZAMBONI, 1998). As representações históricas das sociedades indígenas que circulam nas narrativas dos cronistas, assim como na mídia e no discurso dos estudantes, não devem ser tomadas como verdadeiras ou erradas, mas como objetos de estudo e de problematização nas aulas de história.           

 

ORIENTAÇÕES PEDAGÓGICAS PARA O USO DAS FICHAS TEMÁTICAS

 

As propostas pedagógicas delineadas nas Fichas Temáticas podem ser aplicadas nas aulas de História do Ensino Fundamental (séries finais). Tratam-se de propostas de abordagem de fragmentos de crônicas coloniais em sala de aula, com o objetivo de estudar a produção de sentidos, especialmente, as condições de produção dos discursos que descreviam as sociedades indígenas pré-colombianas e coloniais. Este tipo de estudo busca situar as imagens/representações dos indígenas, veiculadas nas narrativas coloniais, como construções baseadas em valores e conceitos que eram externos e estranhos aos próprios indígenas.  Este trabalho pedagógico com as narrativas coloniais possibilita ainda a percepção de diferentes modos de ver e significar o passado indígena, além da compreensão da historicidade das interpretações e das relações da linguagem com a cultura e o poder. Neste caminho abre-se possibilidade para que os estudantes também possam interpretar o passado e reconhecer a historicidade de suas próprias representações acerca dos indígenas. Os referenciais teóricos e metodológicos que orientaram a elaboração das atividades pedagógicas inscritas nas Fichas Temáticas foram construídos em sintonia com as tendências pedagógicas construtivistas expressas nos PCNs. Nessa perspectiva, entendemos o processo de ensino-aprendizagem como momento de reconstrução do conhecimento, cujo objetivo central é a formação do estudante como cidadão crítico, sujeito histórico e também produtor de conhecimentos. As discussões interdisciplinares sobre os conceitos, status e abordagem metodológica das fontes tiveram como referência alguns princípios da Análise do Discurso francesa e os conceitos de Representações Sociais e Imaginário Social.    

 

 

ESTRUTURA DAS FICHAS TEMÁTICAS

 

A Ficha Temática é um recurso didático que apresenta trechos de fontes históricas coloniais referentes às sociedades indígenas da América Colonial, bem como propostas pedagógicas para o trabalho de leitura, análise e discussão destas fontes em sala de aula. Elas apresentam a seguinte estrutura e conteúdos:

FONTE: referência bibliográfica do trecho do documento que se apresenta no Extrato.

 

TIPO DE FONTE: identificação do tipo de documento histórico apresentado no Extrato: crônica colonial, relato de viagem, tratado, carta, processo, etc.

 

CENÁRIO: apresenta breve descrição do contexto em que o documento foi produzido e da localização no tempo e no espaço do tema tratado no Extrato.

 

TEMA: identifica o assunto central do Extrato.

 

EIXO TEMÁTICO: identifica a Ficha no conjunto de temas de estudo propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino de história.

 

EXTRATO: transcrição literal de um trecho do documento.

 

PALAVRAS-CHAVE: termos que identificam as idéias ou temas principais do extrato de documento.

 

PROPOSTAS PEDAGÓGICAS: sugestões metodológicas para que os professores possam utilizar o recurso recomendado em sala de aula. Dividido em duas partes: a primeira apresenta um roteiro de atividades focado na leitura, análise e discussão do Extrato; já a segunda traz indicações de temas para pesquisa (extraclasse) e de questões para debate que favoreçam uma percepção das mudanças e permanências, e das diferenças e semelhanças entre o passado e o presente. RECURSOS

 

DIDÁTICOS AUXILIARES: recursos digitais (apresentações, imagens, vídeos, textos, cronologias, mapas, etc.) que recomendamos para explicitar alguns conteúdos apresentados na Ficha.

 

INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS: referências de textos acadêmicos (artigos, livros, resenhas, teses, dissertações, etc.), disponíveis na internet, que podem contribuir no enriquecimento do conhecimento historiográfico dos professores a respeito do tema tratado na Ficha.

 

LOCALIZAÇÃO DIGITAL: endereço do site onde se encontra a obra completa, na língua original, para download.

A construção dessa metodologia é resultado das atividades do Projeto de Extensão “América indígena: oficinas, pesquisas e materiais didáticos para o ensino de história”, – desenvolvido no Laboratório de Ensino de História (LABEH) da Universidade de Brasília (UnB), entre os anos de 2011 e 2015.

BIBLIOGRAFIA

OLIVEIRA, Susane Rodrigues de. As Crônicas Coloniais no Ensino de História da América. História & Ensino (Universidade Estadual de Londrina), v. 2, p. 235-256, 2011. DOWNLOAD.

 

OLIVEIRA, Susane Rodrigues de. Representações das sociedades indígenas nas fontes históricas coloniais. Anos 90 (UFRGS). Porto Alegre, vol 18, n. 34, 2011. DOWNLOAD.

 

OLIVEIRA, Susane Rodrigues de. As crônicas coloniais e a produção de sentidos para o universo incaico e o passado das origens do Tawantinsuyo. Revista Dimensões (UFES), v. 20, p. 95-128, 2008. DOWNLOAD.

Laboratório de Ensino de História

Universidade de Brasília

Departamento de História

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